terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Clarice Lispector e sua nova (e surpreendente) popularidade

Falar dessa ucraniana com alma brasileira nos dias atuais deve ser feito com muito cuidado. É por que percebemos claramente o quanto as redes sociais popularizam Lispector nos últimos tempos. Nunca ela foi tão querida e amada pelos seus leitores; essa mesma autora que no passado arrancava arrepios nos estudantes que eram obrigados a estudar sua obra na escola, hoje são as suas famosas frases que causam alvoroço e são motivos de muitos comentários e reproduções no mundo virtual.
Clarice é dona de uma literatura com alto nível de complexidade, isso devido a toda introspecção de suas obras. Um acontecimento banal, algo do cotidiano – como olhar-se no espelho, o quebrar de ovos e a contemplação de um buquê de rosas – na vida de um personagem lispectoriano significa algo muito maior. Um simples fato do dia-a-dia pode fazer com que a personagem comece a refletir e descubra sua alienação e após esse processo, tudo pode mudar na vida dela - ou não - ela pode voltar à estaca zero, conformada com a realidade que a cerca.
Clarice Lispector nasceu na década de 20 e faleceu em 1977; sua produção literária iniciou nos anos 40, até o ano de sua morte. Ou seja, faz mais de 30 anos que a autora nos deixou, mas mesmo assim, sua obra é estudada como Literatura Contemporânea e assim também é considerada, sendo os seus livros classificados como romance moderno.
Talvez seja pelo seu olhar intuitivo em relação ao universo feminino que Clarice Lispector hoje é popular entre as mulheres; elas sempre ocuparam um lugar de destaque nas páginas da autora. Mas Clarice não é vista como uma feminista, uma defensora dos direitos das mulheres; tais personagens não foram mulheres à frente de seu tempo, muitas vezes elas foram caracterizadas como submissas – submissas aos homens e ao ambiente que as domina. Essa última característica pode ser facilmente identificada no romance “A Hora da Estrela” através da personagem Macabéa – uma mulher totalmente conformada com a sua situação miserável e com todos os problemas que o destino coloca em seus caminhos; é dela a famosa frase: “já que sou, o jeito é ser”. Macabéa – durante toda a sua breve vida – não fez esforços para ser a verdadeira estrela do seu destino.
Quem sabe também haja tais equívocos em relação à obra lispectoriana, pois esta ainda não é de domínio público; os livros de Clarice não podem ser digitalizados sem autorização, tampouco disponibilizados de forma gratuita e nem as editoras conseguem comercializá-los a preços mais acessíveis; isso poderá ocorrer somente depois dos 50 anos de falecimento da autora. Deduz-se então que, como os livros de Clarice não são tão acessíveis como os de Machado de Assis, por exemplo (que já é de domínio público há décadas), muitos não têm acesso à obra da autora – já que sabemos o quão escassas são as nossas bibliotecas públicas, infelizmente – e baseiam-se em fontes não muito confiáveis para creditar e divulgar textos sendo dessa autora.
Vejamos um exemplo: há sites que creditam à Clarice a seguinte frase: “Você pode até me empurrar de um penhasco e eu vou dizer: e daí, eu adoro voar!”. Esse estilo da frase não se enquadra com o de Lispector; nossa querida autora é dona de uma literatura mais intimista, simbólica e introspectiva, o que nada tem a ver com a expressão acima citada. Há fontes na internet que declaram que essa frase foi dita pela atriz Bruna Lombardi, outros dizem ser de Kathlen Heloise Pfiffer. Então, como saber ao certo? A resposta é simples: não há como saber, pois não encontramos referências bibliográficas que comprovem a autenticidade da frase sendo de autora X ou Y; a internet é um espaço livre, e pelo menos em nossa realidade, os direitos autorais nunca foram devidamente respeitados na web. Por mais que se confie em uma página virtual, nada se compara com a veracidade de um livro, devidamente publicado, catalogado e registrado.
Essa expressão é só uma de tantas que a todo tempo são divulgadas na rede mundial de computadores, através de ferramentas como e-mail, twitter, Orkut e facebook. A internet, que poderia ser uma verdadeira aliada na disseminação da literatura lispectoriana, hoje se tornou uma grande vilã, espalhando inverdades e deboches referentes à obra dessa escritora genial.
Mas bem sabemos que a internet é atualizada pelas pessoas, a maioria delas são pessoas de bem, que não veem maldade alguma em repassar aquele e-mail com um texto bonito assinado por Clarice Lispector, ou então em retwittar aquela frase legal também creditada à autora; por isso, caso você seja fã das frases e textos que circulam na web como sendo de Lispector, a dica é a seguinte: duvide sempre de tudo o que ler; e pesquise, questione, conheça as obras e procure referências, antes de divulgar e disseminar falsos textos pela internet; quem agradece não sou eu, - um apaixonado admirador da obra dessa mulher -, mas sim o legado de Clarice, que de maneira alguma merece ser vulgarizado e desrespeitado, mais ainda do que já está sendo.

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Saudade | Poema de Pablo Neruda


Saudade é solidão acompanhada,
é quando o amor ainda não foi embora,
mas o amado já...
Saudade é amar um passado que ainda não passou,
é recusar um presente que nos machuca,
é não ver o futuro que nos convida...
Saudade é sentir que existe o que não existe mais... 
Saudade é o inferno dos que perderam,
é a dor dos que ficaram para trás,
é o gosto de morte na boca dos que continuam...
Só uma pessoa no mundo deseja sentir saudade:
aquela que nunca amou.
E esse é o maior dos sofrimentos:
não ter por quem sentir saudades,
passar pela vida e não viver.
O maior dos sofrimentos é nunca ter sofrido.
                                                            (Pablo Neruda)

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Tanto na terra, quanto no céu... | Fernanda Mello

Para quem vive com a cabeça nas estrelas, não há desafio maior que manter os pés no chão. É a eterna luta em saber conciliar nossos opostos. Equilibrar o concreto e o abstrato. Saber o que é sonho possível. E o que é puro devaneio. Difícil? Devo dizer que bastante.
Nessas horas, ganha mais quem é sensato. Quem pondera. Quem pesa os prós e contras. E – devo acrescentar – quem acredita em si mesmo.
Mas realidade sem sonho nem sempre tem graça. Não tem vida. Não tem cor. Concordam? O inverso também vale. Sonhos são melhores quando se tem uma certa realidade embutida. Aquela coisa de saber que é difícil, mas não impossível. É aí que mora o bom senso (primo-irmão do equilíbrio e autor de tantos feitos por aí).
Com sonhos a tiracolo e o bom senso nas mãos, mágicas – vira-e-mexe – acontecem. Palavras viram livros, rabiscos viram canções. Simples idéias se transformam em tudo o que a gente sempre quis. (Quer coisa melhor?). São nesses momentos que a vida se mostra cheia de luz. De graça. E de significado. Tudo passa a valer a pena, apesar de todos os tropeços do caminho...
Bom, por que entrei nesse assunto? Porque sou umas das pessoas mais sonhadoras que eu conheço. Talvez não tenha virado escritora por acaso, vai saber... Sonhos são molas que nos impulsionam. São minha inspiração e força. São a minha fé. Ao meu ver, quem não sonha (nem que seja um pouco, quando ninguém está olhando), nunca se sente vivo de verdade.
Mas como tudo tem dois lados, é bom ficar de olhos abertos. Ou melhor: com os pés fincados no chão. Viver só de sonhos não basta. Quem se alimenta apenas de ilusão, perde a realidade da vida e se esconde em um mundo paralelo. Complicado, não? Também acho. Haja discernimento para viajar, se aventurar nas estrelas e saber a hora certa de voltar!
Por isso (como boa canceriana que sou), continuo com a cabeça na lua. O pensamento nas nuvens. E, por via das dúvidas, me belisco sempre para aterrissar. Afinal, quem disse que não podemos trazer pra terra o que criamos em nosso céu?

















Fernanda Mello é escritora, compositora e redatora.
Esse texto foi retirado de seu blog, Coração na Boca.


(Postagem de Vinícius Dill S.)

sábado, 19 de fevereiro de 2011

Fernando Pessoa, o Heteropoeta da Língua Portuguesa

Impossível falar de Poesia em Língua Portuguesa e não lembrar de um dos maiores representantes desse gênero. Fernando Pessoa é chamado por muitos de “heteropoeta” pois, ao longo de toda sua produção literária, criou vários autores heterônimos, com características literárias distintas e percebíveis; os mais conhecidos são Alberto Caeiro, Ricardo Reis e Álvaro de Campos.
E por que será que ele se dividiu em tantos?
Fernando Pessoa procurou reproduzir em sua literatura algumas questões que o perseguiram durante a sua vida, como por exemplo, o desdobramento do “eu” e a multiplicação de identidades. Ao construir heterônimos tão diferentes e de altíssimo nível literário, ele só prova o quanto é genial; é tanto talento que não cabe em uma pessoa só.

É o próprio Pessoa que assina um dos poemas mais conhecidos em todo o mundo:

Mar Português

Ó mar salgado, quanto do teu sal 
São lágrimas de Portugal! 
Por te cruzarmos, quantas mães choraram, 
Quantos filhos em vão rezaram! 
Quantas noivas ficaram por casar 
Para que fosses nosso, ó mar! 

Valeu a pena? Tudo vale a pena 
Se a alma não é pequena. 
Quem quer passar além do Bojador 
Tem que passar além da dor. 
Deus ao mar o perigo e o abismo deu, 
Mas nele é que espelhou o céu.
 (Fernando Pessoa)

É nesse poema que encontramos a célebre frase: “Tudo vale a pena | Se a alma não é pequena”, citada para fazer referência aos portugueses que deixaram o país em viagens marítimas, ao longo dos séculos, sobretudo durante o século XVI, período de maior ascensão de Portugal sobre o resto do mundo.

Pesquisando sobre a biografia de Fernando Pessoa, encontrei o livroclip “Fernando Pessoa em 8 porradas”,  que explica de forma bem descontraída e didática o quão dura foi a vida desse gênio da nossa literatura:


Caso você queira conhecer um pouco mais da poética pessoana, a sugestão é esse livro, editado pela L&PM Editores, na coleção pocket: “Poesias”, reúne uma bem construída seleção de poemas assinados por Pessoa e pelos heterônimos Caeiro, Reis e Campos.



Para finalizar, apresento um poema que traz presente outra inquietação de Fernando Pessoa, a "sinceridade pelo fingimento":


Autopsicografia

O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.
E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.
E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.
(Fernando Pessoa)


Postagem de Vinícius Dill S.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Feios porém lindos | Martha Medeiros


"As feias que me perdoem, mas beleza é fundamental". 

Era um poeta maravilhoso, esse Vinicius de Moraes, mas deixou imortalizada uma frase que jamais sairia da boca de uma mulher. Aos feios, as mulheres dão boas vindas, desde que por trás do olho que não é azul e do corpo que não é atlético haja bom humor, inteligência e sex appeal.
Nunca veremos Brad Pitt e George Clooney namorando feinhas, mas já vimos Julia Roberts casar com Lyle Lovatt, um músico que tinha o rosto decorado com crateras, e a estonteante Sharon Stone desfilar com baixinhos barrigudos até contrair matrimônio com um senhor que mais parece um boneco de cêra. Há quem defenda a idéia de que mulheres casam com qualquer um, desde que tenha poder ou dinheiro. Poucas. Não foi o caso de Julia Roberts nem o de Sharon Stone, ricas e poderosas por si só, e também não é o caso de muitas Lucias, Andreas, Cristinas, Danielas, Fernandas e Jussaras anônimas. Mulheres preferem ser amadas do que invejadas.


Essa história de beleza tem a ver com atração, que tem a ver com "a primeira impressão é a que fica", que tem a ver com inícios de relações. Se a garota for um canhão, as chances de conquistar um deus são quase zero (é uma generalização, toda regra tem exceções). Já se o garoto for feio, porém espirituoso, talentoso e auto-confiante, pode descolar o número do telefone da Marisa Monte. Lembrem-se que ela já namorou o Nando Reis, dos Titãs. Alguma coisa ele tem de lindo.



Mick Jagger é raquítico e branquela. Gerald Thomas é raquítico, branquela e usa óculos. Woody Allen é raquítico, branquela, usa óculos e está quase careca. Apesar desse quadro de horror, sei de muita mulher que não os expulsariam da sua cama. Será que elas nunca ouviram falar em Mel Gibson, Antonio Banderas, Pedro Bial? Elas nunca ouviram falar é que beleza garanta o conteúdo.

Mulher tem faro, não se contenta com a embalagem. É bem mais comum ver uma mulher linda acompanhada de um homem aparentemente sem graça do que o contrário. Não é (só) porque a concorrência é implacável e nos contentamos com o que sobra. É porque mulher tem raio-x: consegue olhar o que se esconde lá dentro. Se além de um belo coração e um cérebro em atividade ele ainda for apetecível, é lucro. Pena que a recíproca raramente seja verdadeira. Economizaríamos fortunas em cabeleireiros e academias se os homens fossem direto ao que interessa, na alma e no espírito, para os quais não adianta maquiagem.



Martha Medeiros

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

O Quase – Luís Fernando Veríssimo (Apócrifo)


Ainda pior que a convicção do não, e a incerteza do talvez, é a desilusão de um quase. É o quase que me incomoda, que me entristece, que me mata trazendo tudo que poderia ter sido e não foi. Quem quase passou ainda estuda, quem quase morreu ainda está vivo, quem quase amou não amou.
Basta pensar nas oportunidades que escaparam pelos dedos, nas chances que se perdem por medo, nas idéias que nunca sairão do papel por essa maldita mania de viver no outono.
Pergunto-me, às vezes, o que nos leva a escolher uma vida morna; ou melhor, não me pergunto, contesto. A resposta eu sei de cor, está estampada na distancia e frieza dos sorrisos na frouxidão dos abraços, na indiferença dos “Bom Dia” quase que sussurrados. Sobra covardia e falta coragem até para ser feliz.
A paixão queima, o amor enlouquece, o desejo trai.Talvez esses fossem bons motivos para decidir entre a alegria e a dor, mas não são. Se a virtude estivesse mesmo no meio termo, o mar não teria ondas, os dias seriam nublados e o arco-íris em tons de cinza.O nada não ilumina, não inspira, não aflige nem acalma, apenas amplia o vazio que cada um traz dentro de si.
Não é que fé mova montanhas, nem que todas as estrelas estejam ao alcance, para as coisas que não podem ser mudadas resta-nos somente paciência, porém, preferir a derrota prévia à duvida da vitória é desperdiçar a oportunidade de merecer.
Pros erros há perdão; pros fracassos, chance; pros amores impossíveis, tempo. De nada adianta cercar um coração vazio ou economizar alma. Um romance cujo fim é instantâneo ou indolor não é romance. Não deixe que a saudade sufoque, que a rotina acomode, que sonhando, fazendo que planejando, vivendo que esperando porque embora quem quase morre esteja vivo, quem quase vive já morreu.





P.S. Este texto é um apócrifo, e segundo o próprio Veríssimo a verdadeira autora é Sarah Westphal.



quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Para viver com poesia | Mario Quintana

“O que eles chamam de nossos defeitos é o que nós temos de diferente deles.”

“Sorri com tranquilidade | Quando alguém te calunia. | Quem sabe o que não seria | Se ele te dissesse a verdade.”

“Há noites em que não posso dormir de remorsos por tudo o que deixei de cometer.”


São frases como essas que compõem o livro que venho apresentar hoje a vocês. Para viver com poesia, selecionado e organizado pelo jornalista e escritor Márcio Vassalo, reúne uma coletânea de pensamentos do querido e eterno Mario Quintana, o poeta dos Quintanares. Para editar essa obra, Vassalo releu toda a obra de Quintana, selecionou as frases e as dividiu em assuntos: para olhar por outro ângulo, para levar a infância a sério, para despertar a fantasia, para ver com olhos de primeira vez, para perceber a arte, para chegar mais perto dos poetas, para notar diferenças, para alimentar mistério, para reparar, para mirar no espelho, para encarar, para seguir em frente, para ler em boa companhia, para clarear sentimento, para provocar inquietude, para amansar o coração, para dar corda na preguiça, para suspeitar, para aproveitar o percurso e finalmente, para viver com poesia – seção essa que dá nome ao livro.
São pequenas frases, algumas carregadas de humor, que reproduzem muito bem toda a poética multifacetada desse grande escritor, repleta de traços ora românticos, ora realistas ou modernistas, mas sempre com muita criatividade e desenvoltura para falar de coisas simples, além, é claro, de sua peculiar pitadinha de ironia e nostalgia.
Para viver com poesia é aquele livro que você jamais vai ler apenas uma vez; vai deixá-lo sempre ao alcance dos olhos e folhear toda vez que sentir a necessidade de um pouquinho de arte, seja para se acalmar, para passar o tempo ou então para sonhar. Pode ser também uma excelente opção de presente para pessoas queridas e principalmente sensíveis.

Para viver com poesia | Mario Quintana: Editora Globo, São Paulo, 3ª reimpressão, 2007, 118 páginas.



Resenha de Vinicius Dill S.

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